
Transmitia calma em seu olhar, mas também transmitia tristeza. Era a segunda xícara de cappuccino e ela permanecia na cafeteria, lendo um livro qualquer. O lugar aconchegante aliviava sua solidão já fazia algum tempo, apesar de não parecer o lugar certo para ela.
Seu rosto angelical denunciava sua adolescência, e seus cabelos desgrenhados também. Os olhos escuros eram destacados pela maquiagem forte e um óculos de armação escura; seus lábios adornados por uma argola de metal, que vivia sendo repuxada. Ao todo, seu rosto formava um conjunto bonito e diferente.
Do balcão chamaram seu nome, e ela supôs que seus biscoitos estivessem prontos. Ao levantar-se, derrubou seu livro e alguns papéis. Xingou-se mentalmente por ser tão desastrada. Abaixou-se para recolher tudo, porém, as mãos de um desconhecido foram mais rápidas. Uma voz musical a atingiu, a deixando desconcertada.
- Deveria tomar mais cuidado, não? -
- Ah, não precisava ter recolhido tudo, eu já estava fazendo isso – respondeu, tímida.
- Um ”obrigado” é o bastante – respondeu, soando irônico.
Ela abriu a boca para retrucar, porém interrompeu o ato ao encarar o rosto do desconhecido. Suas feições eram tão bem-feitas que lembravam um desenho, e seu cabelo não muito curto caía displicente em seu rosto, formando uma cortina sob seus olhos acinzentados. Ou seriam azuis? Pouco importava, ela só conseguia sentir a intensidade. Dos próprios olhos e de todos os outros detalhes do rosto. Que idade teria? Não importava também. Ela o encarava paralisada.
- Sou tão assustador assim? – ele perguntou, mostrando um sorriso perfeito.
Ela sorriu também, encantada com o sorriso e a voz deste. Quis imediatamente saber seu nome. Quis convidá-lo para sentar-se com ela e perguntar mil coisas.
E o fez.
- É que eu gostaria de saber seu nome -
- Ah sim, claro! – sorriu mais uma vez – Nathan, e o seu? -
- Prazer, Alexia -
- Alexia? Nossa, é diferente… Assim como você -
Alexia surpreendeu-se como um comentário tão simples como aquele pôde mexer tanto com sua cabeça. Ninguém nunca havia comentado sobre seu nome de forma tão doce. Eram sempre comentários sem fundamento dizendo o quão estranho seu nome era. Não a incomodava, de modo que ouvir um comentário bom sobre seu nome a incomodava menos ainda.
- Obrigado por ser tão doce – ainda o encarava, corada – Gostaria de sentar-se comigo? Ando precisando de companhia -
- Gostaria sim! Mas acho que você deveria buscar seus biscoitos antes -
Nathan riu, arrancando mais um sorriso de Alexia.
-//-
- Você vem aqui todos os dias? -
- Só quando me sinto sozinha – apertou a xícara com força – Ou seja, todos os dias -
- Já desconfiava. Você transmite tristeza e solidão. Uma perfeita ironia – ele riu de sua própria piada.
- Como assim? -
- É que você é bonita demais pra transmitir tantas coisas ruins – falou sério dessa vez.
Os pensamentos se embaralharam na mente adolescente de Aléxia. Ela era bonita? Não sabia. Sempre foi considerada diferente, mas muitos disseram que ela possuía uma beleza exótica. Ela nunca havia acreditado em tal informação. Até agora.
Mas… Também havia o fato de ele ter percebido sua aura triste. Ela nunca soube ao certo o motivo de ser tão triste e sozinha. Talvez as pessoas não vissem sua diferença com bons olhos. Talvez ela exigisse demais das pessoas e acabava se afastando por não conseguir tudo. Talvez. Talvez.
Ela não sabia.
- Por que você é assim? -
- Assim como? – desconversou.
- Triste, solitária, melancólica… -
- Eu… Eu não sei. Eu me acostumei á solidão. Ela faz parte de mim agora -
- Ninguém é feliz sozinho. Mas creio que você já saiba disso -
- Não é bem assim. Dá pra ser feliz sozinho -
- Não dá! -
- Dá! -
- Não dá, Alexia! – ele parecia irritado, mas ao mesmo tempo parecia preocupado também.
Ela o encarou, irritada. Quem ele era pra dizer o que ela devia fazer? Ele era um estranho. Um completo estranho, cujas informações compartilhadas não passavam de seu nome. Mas era um estranho tão bonito. Tão envolvente. Tão… Protetor.
Ela quis ouvir o que ele tinha a dizer. Ela precisava achar uma alternativa para sua solidão e ele parecia ser a melhor delas.
- Por que não dá? -
- Porque todo mundo precisa de alguém, Alexia. Todo mundo. -
- Eu não sou o tipo de pessoa que as pessoas possam precisar ou querer. E eu realmente queria saber o porquê disso. Eu não exijo muita coisa. Não mais – fez uma pausa – Eu costumava exigir tudo das pessoas. Cada pedaço, cada segundo. E sempre chegava uma hora em que elas cansavam de me dar tudo, pois eu não tenho nada a oferecer -
- Não se pode ter tudo… -
Sua voz estava trêmula. Dava a impressão de que ele já havia passado por isso também, e tinha certeza absoluta de que não podia se ter tudo.
- Hoje eu só quero as coisas simples – Alexia continuou – Uma carta, um abraço, mil palavras num sorriso ou mil declarações num beijo. Essa simplicidade conseguiria fazer meu tudo – repuxou o piercing, seu nervosismo aparente – Eu só queria alguém que… -
- Alguém que te fizesse sorrir sem pedir nada em troca – ele foi mais rápido e completou sua frase.
E coincidentemente, era tudo que ela queria dizer. Ou melhor, era tudo que ela precisava, e ele também. Ambos sabiam do que precisavam. E talvez até, ambos quisessem correr atrás disso.
Despediram-se com um rápido abraço, sem promessas ou planos de se verem novamente.
Talvez o tão falado destino os ajudasse, e eles pudessem encontrar-se novamente no dia seguinte. Era o que os dois – secretamente – esperavam que acontecesse.
Porém, o segundo encontro ocorreu mais rápido que o esperado, e foi involuntário. Na mesma noite daquele dia, Alexia o encontrou e não pode evitar um sorriso.
Ela o encontrou em seus sonhos.
A noite chegou, fria e solitária, congelando as estrelas do céu e os corações dos desesperados em busca de conforto nos braços de alguém.
Elas estavam lá, naquele quarto pequeno de paredes mofadas, uma sentada na cama bagunçada, abraçando o próprio corpo. Seu sono era aparente, devido ás olheiras que contrastavam com sua pele de porcelana e seu cabelo escuro.
Ela se recusava a dormir, novamente.
A outra enroscava seus braços em volta do pescoço da de cabelos escuros. Seu rosto era angelical e talvez até milagroso, pelo simples fato de que no momento em que qualquer ser humano colocasse os olhos naquele rosto, os problemas pareceriam desaparecer.
Ela sussurrava o fim de uma música qualquer, acalmando-a.
Elas estavam lá, naquele quarto pequeno de paredes mofadas, uma sentada na cama bagunçada, abraçando o próprio corpo. Seu sono era aparente, devido ás olheiras que contrastavam com sua pele de porcelana e seu cabelo escuro.
Ela se recusava a dormir, novamente.
A outra enroscava seus braços em volta do pescoço da de cabelos escuros. Seu rosto era angelical e talvez até milagroso, pelo simples fato de que no momento em que qualquer ser humano colocasse os olhos naquele rosto, os problemas pareceriam desaparecer.
Ela sussurrava o fim de uma música qualquer, acalmando-a.
- Você precisa dormir, seus olhos já estão se fechando por conta própria – ela disse, esboçando um sorriso.
- Eu não preciso de porra nenhuma, além de você – a outra respondeu.
- Eu havia me esquecido da sua má-educação… -
- Desculpe-me. Só que eu não posso dormir, você sabe -
- Mas é claro que você pode dormir! Onde já se viu uma idéia tão absurda?
- Eu não posso deixar você ir embora de novo -
As lágrimas desceram cruéis por seu rosto perfeito, o que fez a outra colocar-se prontamente á frente da menor, sorrindo e dizendo que tudo ia ficar bem.
- Eu não preciso de porra nenhuma, além de você – a outra respondeu.
- Eu havia me esquecido da sua má-educação… -
- Desculpe-me. Só que eu não posso dormir, você sabe -
- Mas é claro que você pode dormir! Onde já se viu uma idéia tão absurda?
- Eu não posso deixar você ir embora de novo -
As lágrimas desceram cruéis por seu rosto perfeito, o que fez a outra colocar-se prontamente á frente da menor, sorrindo e dizendo que tudo ia ficar bem.
- Shhh – ela colocou seus dedos sobre os lábios da que chorava – eu não vou sair daqui, tá legal? Eu posso segurar sua mão a noite inteira, como prova de que eu estarei aqui. Confie em mim -
Ela abaixou seu corpo, deitando na cama, enquanto puxava a outra pela mão, a aconchegando em seus braços quentes.
- Pronto, agora você pode dormir. Eu estou aqui – ela apertou mais forte a mão da outra.
- Promete que não vai sair daqui? Nunca? – sua voz saía chorosa, como num pedido desesperado de amor e afeto infinitos.
- Eu prometo. É claro que prometo… – ela mentiu, apertando a pequena mais forte em seu abraço – Quer que eu cante pra você? -
- Eu agradeceria. Dormirei mais tranquila se ouvir tua voz -
- Promete que não vai sair daqui? Nunca? – sua voz saía chorosa, como num pedido desesperado de amor e afeto infinitos.
- Eu prometo. É claro que prometo… – ela mentiu, apertando a pequena mais forte em seu abraço – Quer que eu cante pra você? -
- Eu agradeceria. Dormirei mais tranquila se ouvir tua voz -
A dona do abraço quente aproximou seus lábios do ouvido da outra, entoando uma canção qualquer guardada em sua mente.
- And so it’s, just like you said it would be, live goes easy on me, most of the time… -
- Não essa música! Ela é triste e reafirma a idéia de que eu posso te perder depois dessa noite. Cante outra, por favor – ela reclamou, em tom de brincadeira. Um leve sorriso tingia seu rosto pálido.
- Não essa música! Ela é triste e reafirma a idéia de que eu posso te perder depois dessa noite. Cante outra, por favor – ela reclamou, em tom de brincadeira. Um leve sorriso tingia seu rosto pálido.
- Ok, eu posso cantar outra. Vejamos, que tal aquela que você tanto gosta, uh? -
- Eu acho que sei qual é. Pode cantá-la sim, você sabe que é a minha preferida -
- Eu acho que sei qual é. Pode cantá-la sim, você sabe que é a minha preferida -
Ela voltou a cantar, dessa vez com emoção e sentimento. Era a música que as duas sabiam de cor, mas não cansavam de escutar.
- Hand in mine, into your icy blues, and then I’d say to you, we could take to the highway with this trunk of ammunition too… -
- I’d end my days with you in a hail of bullets - a menor continuou a música, de olhos fechados.
- I’m trying, I’m trying, to let you know just how much you mean to me, and after all the things we put each other through, and I would drive on to the end with you… -
- I’d end my days with you in a hail of bullets - a menor continuou a música, de olhos fechados.
- I’m trying, I’m trying, to let you know just how much you mean to me, and after all the things we put each other through, and I would drive on to the end with you… -
A canção continuou sendo cantada por aqueles doces lábios, e os braços continuaram a apertar fortemente a menina entre eles. O sono acabou por dominá-la, e ela entregou-se ao mundo dos sonhos, sem deixar de sentir e ouvir a voz que a embalava.
A noite se foi, tão rápida quanto começou. Logo as estrelas congeladas deram espaço ao sol, o que indicava a todos aqueles que não pertenciam a este mundo, que era hora de ir embora.
A noite se foi, tão rápida quanto começou. Logo as estrelas congeladas deram espaço ao sol, o que indicava a todos aqueles que não pertenciam a este mundo, que era hora de ir embora.
Sem demora, a pequena de que tanto falei havia despertado. Suas mãos procuraram desesperadamente pelas outras que a completavam, em vão. Seus olhos encheram-se de lágrimas, recheadas de angústia. Sem permissão, seu coração chorava e gritava, clamando por seu anjo.
Ela permitiu-se chorar por um tempo, logo percebendo que a outra não voltaria tão cedo.
Ela sentou e aguardou, esperançosa, pela noite fria e solitária. Ela aguardou ansiosamente pelas mãos que iriam completar o caminho de suas próprias.
Ela sentou e aguardou, esperançosa, pela noite fria e solitária. Ela aguardou ansiosamente pelas mãos que iriam completar o caminho de suas próprias.
Original de Dessintonizado



